Dia 18 de julho foi celebrado o Dia de Mandela e, para quem está comprometido ou comprometida com a transformação das mentalidades, essa data não passa sem lembrança.

A trajetória de vida de Mandela é conhecida e reconhecida principalmente pelo seu empenho na luta contra o apartheid. Como bem pontua Maria Amália Cursino, em sua coluna no blog da Roça Nova, já existem excelentes biografias e referências sobre a trajetória do líder; portanto, vou convidar o leitor a tomar o caminho da encruzilhada comportamental e da não-violência em Nelson Mandela, a partir da leitura das reflexões de Aziz Djendli em seu livro Mandela uma estratégia do bem, editado em 2017, também pela Roça Nova.

Sucesso no ano de lançamento, o livro teve uma nova edição em 2020, um pouco antes da pandemia assolar o mundo. Com o isolamento social decretado, a Roça Nova inaugurou uma série de conversas online, alinhando o seu catálogo com a vida cotidiana. Fui convidada para uma conversa sobre o livro, num grupo composto por Zeneide Jacob Mendes, professora e especialista em Terapia Familiar, e Tati Brandão, mentora e treinadora de líderes, analista comportamental, designer, educadora e empreendedora social de desenvolvimento e aceleração de lideranças com foco na afetividade. A conversa contou com mediação de Yara Alencar, consultora na Roça Nova em sustentabilidade e questões identitárias. Saí desse encontro transformada e sobrevivi a 2020 graças a essa leitura diária. Vale a pena assistir o encontro:

https://www.youtube.com/watch?v=4IIvSF4iJYk

Em 111 páginas, aprendemos uma poderosa ferramenta de transformação de valores e comportamentos: a meditação ativa. Até chegar à página da meditação, Aziz esmiúça comportamentos que nos colocam numa prisão interior como, por exemplo,  desespero, culpa ou raiva, e mostra como se libertar deles e chegar às encruzilhadas comportamentais.

“Uma encruzilhada ou interseção comportamental é aquele momento em que temos consciência de poder escolher uma atitude. Isso acontece mais de quarenta vezes por dia.”

A escolha do caminho do bem e da não-violência é de extremo poder, apesar do senso comum atribuir-lhe uma fragilidade, uma fraqueza. A prática de exercer uma força para atingir uma meta sociopolítica através de um protesto simbólico, de não cooperação econômica ou política, de desobediência civil e outros métodos, sem o uso da violência, é realmente um poder fantástico. Grandes líderes promoveram, e promovem, transformações pelo caminho da não-violência. É de Gandhi que Mandela extraí lições, a partir do Satyagraha. Satya significa verdade e agraha significa firmeza, ou seja, Satyagraha é a firmeza na verdade ou firmeza da verdade. 

Curiosamente, em 2020, Judith Butler lançou o livro, ainda sem tradução no Brasil, chamado The force of non-violence, com a premissa de que a não-violência é uma atitude ativa de denúncia e construção de laços de solidariedade capazes de superar o individualismo e a desigualdade. Logo, sobre esse tema da não-violência, há muito o que se estudar e refletir.

Voltando ao Mandela uma estratégia do bem, uma leitura que permite seguir um método de libertação da opressão individual e consequentemente coletiva: com a prática diária da meditação ativa é possível não se entregar à prisão existencial e, com isso, nos tornarmos seres humanos capazes de promover a mudança a partir de nós para alcançar o todo. Essa estratégia está longe de ser passiva. Para mim, particularmente, Mandela é exemplo da subversão do que pode significar um ato de opressão, preso por 27 anos, ele foi capaz de exercitar o poder da não-violência. Por sorte, podemos ter em mãos este livro com a sua metodologia organizada por Aziz Djendli.

Nélida Capela

Nélida Capela é mestra em Teoria Literária na PUC-Rio e atua no mercado editorial e de livrarias. É curadora, com foco em eixos temáticos como Africanidades, Estudos de Gênero e Estudos Indígenas, Mercado Editorial Independente. É produtora de eventos especiais e novos negócios na Blooks Livraria, sendo também fundadora da NC Curadorias – plataforma independente de curadoria e conteúdo descolonial.

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