ENTREVISTA COM CHOMSKY NA ÍNTEGRA

Aos 93 anos recém completados, o linguista, sociólogo, filósofo e cientista cognitivo Noam Chomsky ainda está pleno em sua capacidade de se indignar e de apontar responsáveis pela crise climática. Nessa entrevista exclusiva, Chomsky não hesita em culpar o sistema neoliberal como responsável pela destruição ambiental do planeta. E alerta: não vamos conseguir soluções se não pensarmos de forma solidária, como uma grande comunidade global. 

O encontro de líderes e empresários que estiveram reunidos no World Economic Fórum, na cidade suíça de Davos, de 21 a 24 de janeiro deste ano, foi chamado de “The Great Reset”, que em tradução literal quer dizer “O Grande Reinício”. Por causa da pandemia, as mudanças climáticas estiveram no centro das conversas. O que o senhor espera dessa reunião? Podemos ter esperança de ações que resultem em políticas que levem pessoas (não o lucro) em conta?

Noam Chomsky – O aquecimento global é uma ameaça existencial. Se a crise não for superada logo, nada mais importa. Há medidas possíveis – as quais, na verdade, resultariam num mundo não somente bom para a humanidade, mas muito melhor do que ele é hoje. No entanto, só saber disso não é suficiente. As medidas têm que ser implementadas. Há ações encorajadoras em alguns lugares, mas elas precisam ser amplamente expandidas.

Há um grande esforço acontecendo agora para moldar a sociedade pós-pandêmica. O World Economic Forum pode ajudar a inclinar a balança no sentido de uma ordem social que se guie pelas necessidades humanas, não pelo lucro e poder para poucos.

Elon Musk, dono de uma montadora de carros elétricos, que investe também em tecnologia para energias limpas, foi considerado o segundo homem mais rico do mundo. Neste caso específico, a economia verde colaborou para o enriquecimento de um cidadão, não para a saúde de todos, já que ainda não há provas de que o uso de carros elétricos contribuiu para diminuir a poluição, segundo Robert Pollin fala em seu livro. Há um paradoxo nisso?

Noam Chomsky – Numa ordem social capitalista, não é um paradoxo. Mais do que isso, esta é a essência do capitalismo. Isso já foi delineado claramente por Adam Smith no seu clássico “Riqueza das Nações”. Como ele explicou, os “poderosos da humanidade” – no seu tempo, eram os comerciantes e os donos de fábricas da Inglaterra – são “os principais arquitetos da política”. Ainda segundo Smith, eles vão sempre assegurar que seus próprios interesses sejam atendidos, “sem se importar com os impactos disso sobre o povo da Inglaterra, perseguindo apenas sua máxima vil: ‘Tudo para nós, nada para mais ninguém’”.

Esse legado herdado do capitalismo pode ser inibido pela força popular. Mas, sem ela, ele vai permanecer.

Joe Biden venceu as eleições para a presidência dos Estados Unidos, eliminando da disputa o negacionista do clima Donald Trump. É motivo de comemoração para a causa ambientalista?

Noam Chomsky – É motivo para se ficar aliviado, não para celebração.

Sem a maldade de Trump no mundo – pelo menos temporariamente – ficamos com algum espaço para enfrentar a ameaça da catástrofe ambiental. Trump estava dedicado a acelerar a corrida para o abismo e, se ficasse no poder por mais quatro anos, eles nos conduziriam para bem perto de um ponto de ruptura.  Talvez, até mesmo, para além desse ponto.

Nunca houve tamanha perversidade na história humana. São palavras fortes, mas verdadeiras.

Teremos motivos para celebrar se Biden for capaz de dar os passos necessários para evitar o desastre. Isto vai requerer uma enorme pressão pública. Graças, principalmente, aos esforços corajosos de jovens ativistas, Biden apresentou um programa ambiental que é muito melhor do que o de qualquer de seus predecessores, embora ainda longe de ser suficiente.

Lamentavelmente, porém, é provável que o Partido Republicano continue no caminho que tem trilhado nos últimos anos, sobretudo sob a liderança de Mitch McConnell: quando eles não estão no poder, tentam fazer de tudo para que a administração falhe, sem se importarem se isto será cruel com a população. Quando estão no poder, servem primeiro ao seu principal eleitorado, os “poderosos da humanidade”.

As empresas têm sido convocadas a agir de maneira responsável, sócio e ambientalmente, desde a década de 60. Hoje o conceito ESG (Environmental, Social e Governance) tem tomado as discussões empresariais. Alguns chamam de retórica inútil. Como o senhor vê o papel das empresas na construção de um mundo melhor e mais igualitário?

Noam Chomsky – Na década de 1950, nós estávamos certos de que as empresas haviam entendido sua responsabilidade social e estavam se tornando “corporações com alma”. Mas comprovamos a “real generosidade” delas, particularmente quando começaram a ganhar enorme controle político sob o regime neoliberal dos últimos quarenta anos.

Adam Smith teve um olhar certeiro.

O guru econômico da era neoliberal, Milton Friedman, foi admiravelmente franco sobre isso. Friedman argumentou que as corporações não têm que ser responsáveis com a sociedade. Sua única responsabilidade, afirmou ele, é enriquecer os acionistas – que já estão muito ricos – e, naturalmente, enriquecer a si próprias. Em resumo, elas devem seguir, literalmente, a “vilania de Smith”.

Os patrões executaram a tarefa de maneira muito eficiente. Um estudo recente, de alto nível, estimou que houve uma transferência de riqueza, de 90% da camada mais pobre da população aos mais ricos, de cerca de US$ 50 trilhões. Os que receberam esse valor estão concentrados na camada dos super ricos. Ou seja; 0,1% da população aumentou em 20% do total sua participação na riqueza desde que os princípios de Friedman foram impostos, há 40 anos, sob a bandeira da “liberdade”.

Poucos anos atrás, o sistema corporativo começou a enfrentar o que chamou de “riscos de reputação”. Como se diz comumente, os camponeses estão chegando com suas forquilhas, o que pode começar uma luta de classes incessante, a partir do capital.

Passamos, então, a ouvir líderes corporativos reconhecerem erros cometidos em suas gestões e afirmarem sua intenção de transformar suas empresas para que elas se tornem “corporações com alma”, devotadas apenas ao bem estar da população. Dessa forma, os camponeses podem botar de lado suas forquilhas e empenhar sua esperança nos líderes corporativos humanos e generosos.

Acredite nisso por sua conta e risco.

No livro “Crise Climática e o Green New Deal Global” (resenha abaixo), o senhor diz que o resgate do movimento sindical é tarefa essencial, inclusive por causa da crise climática, e lembra que um dos primeiros ecologistas foi um líder sindical, Tony Mazzocchi. Qual a importância de se trazer os trabalhadores para engrossar as fileiras do ativismo ambiental?

Noam Chomsky – Usar a palavra “importância” é um eufemismo. Em vez disso, eu digo que é essencial. O movimento trabalhista tem sido vanguarda, tanto na mudança social progressista, quanto na transformação social. Os poderosos, e aqueles que cumprem suas ordens, sabem disso muito bem.  Quando Reagan (presidente Ronald Reagan) e Thatcher (primeira-ministra da Inglaterra Margareth Thatcher) lançaram o ataque neoliberal sobre a população, seus primeiros atos foram no sentido de atacar os sindicatos. Para que o ataque tivesse sucesso, foi necessário destruir os meios primários que os trabalhadores usam para se defender e para defender a sociedade. Era isso que Mazzocchi estava fazendo. Foi isto também que os trabalhadores militantes fizeram quando eles atacaram o New Deal nos anos 1930, e em outras numerosas ocasiões. Os poderosos e seus agentes sabiam o que eles estavam fazendo.

Hoje, muitos dos mais respeitados economistas dizem que a destruição dos sindicatos é o principal fator que originou esta imensa desigualdade social criada nos últimos quarenta anos. Recentemente, isso foi dito até mesmo por Lawrence Summers (secretário do Tesouro dos Estados Unidos no governo de Bill Clinton).  

A desigualdade social global parece não perder força. De que maneira se pode juntar as duas lutas: contra a desigualdade e contra as mudanças climáticas?

Noam Chomsky – Definitivamente. O capitalismo descontrolado, quase por definição, produz duas crises: aumento da desigualdade e a destruição do meio ambiente. Não somente por causa de sua dinâmica operacional, mas também porque o aumento do poder econômico permite aos poderosos da economia que minem a democracia. Cada vez eles ficam mais poderosos e já se tornaram “os principais arquitetos da política” nos governos, usando o poder do estado a favor de seus próprios interesses. Levamos 250 anos de experiência para comprovarmos que Adam Smith estava certo. Extirpar as raízes dessas duas crises – uma destrutiva, a outra letal – é a tarefa do movimento para criar um futuro para o bem comum.

A jovem sueca Greta Thunberg arregimenta jovens do mundo todo na luta contra as mudanças climáticas. O “Extinction Rebellion” é outro movimento que também consegue atrair jovens nessa direção. O senhor vê diferença entre esses dois movimentos?

Noam Chomsky – É inspirador o que os jovens vêm fazendo, e suas ações deixam uma lição cruel. Quando Greta Thunberg se dirige a nós dizendo “Vocês nos traíram”, ela está certa. E nós deveríamos ouvi-la.

É vergonhoso que gerações mais velhas tenham tolerado este caminho para o colapso social e o suicídio das espécies, de fato até estimulando isto. É vergonhoso que os jovens tenham que liderar um movimento para superar os danos severos que nós causamos.

É importante frisar aqui: não se deve dizer “nós”. Não são os “humanos” que têm causado tantos horrores na era do Antropoceno. Os impactos devastadores têm sido causados, em sua esmagadora maioria, por algumas sociedades, não por todas as sociedade. E pela riqueza e privilégios dentro dessas sociedades, trabalhando dentro de estruturas institucionais com características profundamente perversas. Tais estruturas não foram implantadas pela grande massa da humanidade, ao contrário disso. Frequentemente houve objeções fortes e resistência superadas pela concentração de poder.

Nada disso deveria ser esquecido enquanto trabalhamos para criar um futuro melhor.

Os indígenas são apontados como os povos que mais ajudam a preservar terras, rios e mares. No entanto, são povos que não têm assento nas grandes decisões mundiais sobre o clima. Por quê?

Noam Chomsky – A isso se chama “poder”. Em todo o mundo, populações indígenas que têm sido submetidas a uma “injustiça selvagem” por parte dos europeus, estão na linha de frente dos esforços para salvar o planeta. Os que perpetraram essa violenta injustiça, que causou um extermínio colossal e expulsou-os violentamente de suas terras, agora falham em seguir seu exemplo. E, em alguns lugares, como por exemplo o Brasil de hoje, o poder concentrado está, literalmente, causando sua extinção.

O livro “Crise Climática e o Green New Deal Global” destaca o Green New Deal, formato que pode estar entre as soluções para salvar o planeta. Kate Raworth, a economista britânica, sugere uma economia Donut, em que ninguém seria deixado de fora. Podemos imaginar que cada país, cada região, vai encontrar seu próprio modo para lidar com a crise climática?

Noam Chomsky – Regiões, e mesmo indivíduos, podem e deveriam encontrar seu próprio caminho para um futuro melhor. Mas os problemas são internacionais. Eles não têm fronteiras. Somente através de uma solidariedade internacional podemos pensar em ter alguma esperança de superar as crises que nos confrontam hoje e, assim, poderemos nos mover para um futuro melhor.

O que o senhor acha do “Small is beautiful”, modelo de economia local criado pelo economista alemão E. F. Schumacher nos anos 1970? Seria um dos caminhos para salvar o planeta e a humanidade?

Noam Chomsky – Pode ser parte da solução, mas somente parte. Economias locais não vão parar o degelo das capotas polares ou a próxima pandemia. Gostem ou não, nós estamos juntos nessa crise climática, e devemos trabalhar com verdadeira solidariedade, ajuda mútua e respeito pelo próximo se quisermos persistir e seguir em frente.

Amelia Gonzalez

Amelia Gonzalez é jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros.

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