Estamos às vésperas de comemorar o centenário da Semana de Arte Moderna de 22. Como toda produção artística que confirma sua importância com o passar do tempo, a Semana de 22, como ficou carinhosamente conhecida nos livros escolares, demonstrou sua força ao influenciar a produção cultural brasileira em movimentos como o Tropicalismo e a Lira Paulistana décadas após sua realização. Em 1922, de 11 a 18 de fevereiro, artistas de todas as formas de expressão – música, literatura, artes plásticas e arquitetura – se reuniram motivados ainda pelo escândalo causado pela exposição da pintora Anita Malfatti em 1917, que recebeu duras críticas do conservador Monteiro Lobato e da alta sociedade. A influência do cubismo e do futurismo da vanguarda europeia chocou os padrões estéticos da Velha República. Bendita provocação que terminou por levar os artistas a se organizarem em torno do desejo de mudança.

Vivemos hoje no Brasil um momento de retrocesso, um movimento à extrema direita, com pautas de costumes absurdas frente aos avanços arduamente conquistados, genocídio e ecocídio em curso, esfacelamento das políticas de apoio à produção científica e cultural no país, narrativas de ódio e desrespeito aos intelectuais e à imprensa. O rancor com a Ciência e a Cultura – instâncias que efetivamente desautorizam o discurso oficial pautado na ignorância e na desconstrução dos saberes de toda ordem – se materializa em políticas oficiais promotoras de um ideário onde valores humanistas são descartados e substituídos por um repertório bizarro de crenças absolutistas, tão bem sintetizadas pelo terraplanismo das narrativas.

Nesse cenário desolador, convidada a escrever sobre a comemoração dos 99 anos da Semana de 22, faço um exercício de esperança – ou será de saudosismo do que não vivi – e me pergunto: e se tivéssemos uma nova Semana de 22, dessa vez, 2022? Como seria esse movimento de conexão com o “novo” no contexto planetário, uma vez que hoje é possível influenciar e ser influenciado em arte, ou em qualquer outra área do conhecimento, de forma global, ampla e irrestrita? A Semana de Arte Moderna expressava a influência da vanguarda europeia, mas de uma forma muito própria em releituras genuínas ligadas às raízes da cultura brasileira. Seus artistas assimilaram dessa influência o que ela tinha de melhor: a liberdade de criar a partir do seu lugar de desejo e identidade. Assim, surgem trabalhos, criados dentro da inteligência da aristocracia, é verdade, mas conectados com a essência de um Brasil riquíssimo em expressões artísticas populares, distantes da academia com a qual se desejava romper. 

Há que se ressaltar o caráter revolucionário da Semana de Arte Moderna de 22, quando a ideia de rompimento com a estética da arte tradicional apontava também para o rompimento com valores, ideais e comportamentos da elite quatrocentona de pensamento colonizado. Os artistas propunham uma nova visão de arte, a partir de uma estética inovadora inspirada nas Vanguardas Europeias. Porém, como coletivo e mesmo a biografia de cada um apontava uma renovação social mais ampla de crenças e costumes, que a nova estética vinha anunciar.

A arte é assim: muitas vezes desconhece claramente seu próprio propósito, pois intui as mudanças nas dimensões mais subterrâneas da sociedade. Não à toa a existência da Semana de 22 na história brasileira fortaleceu o surgimento quatro décadas mais tarde do Tropicalismo em resistência à ditadura militar. Sementes mesmo soterradas sempre podem voltar a germinar.

Volto, portanto, ao ponto principal do sonho de ver surgir a Semana de Arte Moderna de 2022 com a mesma potência da original ou senão maior, visto a urgência que o Brasil de hoje vive de qualquer forma de indignação e insurgência. E, por que não a arte nesse lugar selvagem? Por que não a revolução dos saberes ancestrais que podem resgatar nossa identidade? Por que não a poesia a tomar as ruas afastando nefastas perspectivas para 2022? Arriscaria dizer que somente ela tem esse poder de transformar radicalmente realidades. Sim, ela mesma: a utopia.

Porém, suspeito que de alguma forma nesses cem anos que afastam as duas datas, a arte se deixou consumir por uma perspectiva de mercado extremamente capitalista que em parte esvaziou sua responsabilidade histórica. Embora não tenha se configurado com uma proposta artística comum, senão o desejo de se expressar livremente em busca de uma identidade mais brasileira de fato, a Semana de Arte Moderna se configura como um coletivo em processo colaborativo de criação do “novo”, aceito em todas as suas expressões. No entanto, hoje não são muitos os coletivos artísticos em colaboração, já que a cultura do espetáculo condenou os artistas à escravidão do ego e do marketing. Os quase cem anos que afastam a Semana de 22 de nós talvez tenham tornado parte da produção de arte em simulacros. Só a história dirá. Porém, pode existir uma reviravolta em curso, onde artistas voltem a se organizar em movimentos e coletivos, promovendo diálogos que fortaleçam o caminho artístico de cada um e, principalmente, a função social da arte.

Fica aqui, portanto, um exercício de esperança – do verbo esperançar, não do verbo esperar, como diria Paulo Freire – que a poesia e os versos livres de 22 inspirem a revolução que precisamos e que ela possa ser pacífica e ancorada naquilo que nos torna mais humanos: nossa capacidade de criar. 

Nesse sentido, para esperançar com um título da Editora Roça, recomendo o livro “Muito prazer, sou Mário de Andrade” para apresentar aos jovens leitores a personalidade fascinante de um dos protagonistas da Semana de Arte de 22, apresentado sem pompa nem circunstância, bem ao gosto do poeta, pela autora Karina Almeida e com as lindas ilustrações da Gabriela Gil. Vale uma pequena ressalva da verve do próprio Mário: “o passado é lição para se meditar, não para se reproduzir”. O título é uma deliciosa oportunidade de conhecer melhor aquele que nos deixou o clássico Macunaíma, uma reflexão sobre o que é ser brasileiro, muito oportuna a esse momento do país.

Karla Mourão

Karla Mourão é jornalista, trabalhou no mercado publicitário nas áreas de Planejamento, Consumer Insights e Novos Negócios. Há 21 anos, abriu sua própria empresa de Comunicação Corporativa, Scriptorio, hoje Escritório 21. Na agência, é CEO e responde pela Direção de Criação e pelo Planejamento Estratégico. Karla é também poeta, escritora e colagista.

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