Depois de muito transitar entre o ambiente urbano e o ambiente rural, o fim dessa vida dupla acabou em 2017!

Saí do olho do furacão urbano no Rio de Janeiro capital e fui morar numa pacata cidade no interior de São Paulo. 

Há pouco mais de três anos, moro num pequeno sítio, onde planto meu alimento e me conecto com o trabalho, com a terra, seus frutos e com alguns desafios que eu desconhecia: formigas, gafanhotos…

Nasci no Rio de Janeiro, na Cidade Maravilhosa, cujo excesso de ruídos e o ritmo acelerado da vida urbana me impulsionaram para uma transição geográfica radical para o ambiente rural, mais precisamente a 15 quilômetros do centro da cidade de Piracaia, São Paulo.

Confesso que o distanciamento dos grandes centros urbanos ainda gera um alívio e um bem estar prolongado, semelhante ao que eu sentia quando conseguia estar temporariamente longe da cidade grande.

Digamos que a preparação foi longa para essa facilitada adaptação à vida rural. Senti pouquíssima dificuldade em me ajustar ao ritmo da vida no interior, longe da cidade, das pessoas e mais perto da natureza e de mim mesma.

Meus pais sempre visitavam familiares que moravam no campo, sendo essas as minhas primeiras lembranças de viagens, especialmente dos quintais com árvores cheias de frutas maduras no pé, das brincadeiras e das aventuras ao ar livre.

Com a separação dos meus pais no início da adolescência, mensalmente eu estava numa região rural, quando ia para a casa do meu pai, no sítio em Engenheiro Pedreira ( RJ).

Nas férias escolares, era quando a minha estada era mais longa e divertida, pois o convívio era mais frequente com os produtores rurais. Era um contato  ainda mais profundo e genuíno, com a terra e com os que ali viviam, à medida em que eu participava de algumas atividades campesinas, tais como plantar, colher, cuidar ou observar o cuidado com os animais! Foram muitas  conversas que  registravam a cultura, os saberes e as tradições de quem vive no campo.

Por quase quarenta anos, os espaços rurais e naturais serviram como verdadeiros sopros de paz para minha alma ou, simplesmente, como rotas de fuga do estresse ao qual os habitantes dos grandes centros urbanos são submetidos.

Quando a vida objetiva de estudo e de trabalho me puxava quase que obrigatoriamente para a cidade, sob estresse, eu me refugiava no Jardim Botânico observando aves ou buscava alguma floresta para fazer trilhas e expandir meus limites…

Agora, de bem longe, revisitando a minha linha do tempo e as etapas de vida, sinto uma inquietação só de lembrar. Esse desconforto já era o indício de não conformidade com o estilo de vida urbano, ou seja, eu não serviria para viver trancada num apartamento por muito tempo.

Agora posso dizer que me sinto verdadeiramente em casa, em comunhão com a terra e com todos os seres que vivem ou aparecem no nosso quintal e no entorno, com quem estamos interrelacionados. Daqui, a presença majestosa dos ciclos da natureza, das estações e da vida, parecem  pulsar mais forte e não param!

Do meu escritório vejo a bananeira que plantei filhote há pelo menos dois anos, agora exuberante, carrega um belo cacho e seu coração está cheio de pequenas flores, o que é um belo atrativo para beija-flores e abelhas virem nos visitar continuamente, sobretudo no inverno.

E lembrar que o canteiro de obras com os anos desapareceu depois de tanto trabalho! A cada estação o quintal se apresenta de uma forma diferente, se transformando com nossas intervenções e com as influências externas que não podemos controlar: gerando, atraindo e produzindo efeitos surpreendentes dentro do contexto maior, o qual fazemos parte ecologicamente.

Algumas situações indicam mudanças positivas com belas surpresas, já noutras, há indícios de desequilíbrios no meio onde estamos, o que nos mostra que devemos observar, estudar, aprender na prática e com calma sobre temas  específicos que se destacam, para escolhermos como agir, em busca da solução, mas com coerência ao que acreditamos e com respeito aos nossos valores. 

Atenção! Algumas situações desafiantes, testam as nossas verdades nessa nova vida na roça!

Hoje em dia posso afirmar que a felicidade se tornou uma amiga mais frequente em minha vida, daquele tipo que me visita diariamente, em cada amanhecer, quando os sons das aves se manifestam, quando trago a colheita casa adentro sabendo de onde veio o alimento, quando os sabores e aromas do quintal invadem nossa cozinha e quando na mesa do café da manhã  contemplamos com tranquilidade a paisagem e a vida a qual participamos da construção,  perpetuamente.

A sensação de estar no caminho certo e finalmente começar a viver a tão almejada qualidade de vida e o bem-estar, acariciam a alma.

A realização de ter feito a transição da cidade para o campo, plenamente e sem traumas, é  imensa, sendo um misto que vai da alegria para o alívio!

Sempre que necessário, transito pela cidade grande para resolver algumas questões, visito um familiar ou um amigo, mas não aguento ficar no agito urbano por muito tempo, confesso!  Tenho prazo de validade, sabe?

Digamos que me adapto bem e até me divirto enquanto estou num centro urbano, mas sabendo que em pouco tempo estarei de volta ao meu aconchego, no interior de Piracaia, no Lar Doce Lar, sonho que germinou desde que eu era pequenina e que foi crescendo, até ser construído com muito amor, determinação e em família.

Talvez o ser urbano que existe aqui dentro esteja de férias…

O campo que eu tanto amo, lugar que escolhi para viver, é próspero e abundante.

Abrir os caminhos para quem deseja se conectar a esta fonte é tornar a minha vida, e a de quem vem comigo nesta jornada, uma experiência riquíssima e muito especial.    

Até  breve,

Jana Carvalho

Jana Carvalho, movida pela paixão e a satisfação em estar no ambiente rural, juntou as formação em turismo e as experiências pessoais e profissionais para empoderar famílias que vivem na roça a prosperarem através de novas atividades ligadas a produtos e serviços rurais.

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