Desafiada a escrever sobre o trabalho da Roça Nova Editora de editar mulheres latino-americanas, inicialmente pensei em declinar do convite por não ser uma especialista no assunto e também por reconhecer que não li tantas autoras latino-americanas quanto gostaria. 

A literatura latino-americana é determinante na minha trajetória como leitora, porém, pela voz de escritores como Neruda, Borges, Gabriel García Márquez, Cortázar, Galeano e outros memoráveis. Argumentei que autoras da região só Gabriela Mistral e Isabel Allende, e mais recentemente Ida Vitale, compõem a minha estante afetiva.

Imediatamente, compreendi meu equívoco e me surpreendi de ter considerado a literatura brasileira fora desse recorte, uma vez que sou ávida leitora das mulheres brasileiras, desde Raquel de Queiroz, Ligia Fagundes Telles, Carolina Maria de Jesus, Cecília Meireles, Adélia Prado até Maria Valéria Rezende e Elvira Vigna, passando pelas indecifráveis Clarice Lispector, Hilda Hilst e Ana Cristina Cézar. 

Aceitei resignada o lapso limitante que inicialmente me fez reconhecer apenas a língua como território de pertencimento e segui mais confortável na tarefa de escrever estas linhas, ampliando meus continentes, inclusive para além do recorte geográfico, e procurando pensar o que seria a América Latina em sua subjetividade literária, sob o recorte do feminino. Imagino que é essa belíssima investigação que a editora Roça Nova pretende fazer com autoras contemporâneas. E celebro esse propósito.

Isso dito, começo por reconhecer que sou apenas uma jovem senhora latino-americana, sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes. Falar deste lugar não é pouco. 

Acrescento que quando ouço “América Latina”, minha primeira memória afetiva é musical. Meu pai era grande apreciador de Mercedes Sosa e foi com “a voz dos sem voz” que fiz o primeiro contato com um sentimento de latinoamérica. Agradeço essa iniciação e consagro-a à ancestralidade ameríndia que nos conecta sob a profecia do encontro entre águia e o condor, tão bem personificada na figura mestiça de Mercedes que cantou todas as nações, incluindo o Brasil, em inesquecíveis parcerias com Milton Nascimento, Chico, Caetano e muitos outros.

Foi através de Mercedes que descobri a poesia de Violeta Parra e María Elena Walsh. Elas que expressam de forma magnífica o amor pela América Latina, e também a dor da exclusão e do exílio, em poemas como “Serenata para la tierra de uno” ou “Maldigo del Alto del Cielo” e “La Carta”.

Violeta Parra que, junto com Mercedes – hoje sei, não sabia – foi personagem nos anos 60 do potente movimento da nova canção latino-americana, definida por conteúdos de denúncia social com elementos do folclore da região, foi quem me conduziu ao encontro com Neruda, seus vinte poemas de amor e uma canção desesperada, um divisor de águas na minha escrita romântica. Daí segui com Neruda e suas odes elementares para sempre, quase como um livro de orações.

É emocionante perceber que o estranhamento inicial que imaginei ter com o tema, não se confirma. E que a latinidade é na verdade um valor na formação da minha identidade literária, estética, ética e política. 

No final dos anos 70, surge o grupo Raíces de América, formado por músicos brasileiros, argentinos e chilenos, que teve Mercedes como madrinha e resgatou os clássicos da “literatura” musical engajada latino-americana, emocionando os jovens, entre eles eu, envolvidos no movimento da abertura política brasileira e no Diretas Já. Violeta Parra, Pablo Milanes, Jose Marti, Nicolas Guillen, Pablo Neruda, Victor Jara, Atahualpa Yupanqui passaram a tocar alto nas vitrolas (eu tinha uma portátil que carregava para a casa das amigas junto com meus vinis preferidos). Reconhecer essa conexão afetiva através de canções que povoaram minha infância e adolescência despertou um orgulho latino adormecido.

Creio ter me perdido neste vasto continente imaterial que é a alma usurpada dessas nações. Afinal, o que temos de mais visceral em comum é uma colonização assassina e nos resta compartilhar a herança do genocídio dos nossos povos originários, que segue em curso. Esse passado colonial nos roubou inúmeros povos, línguas e cosmologias, sequestrou a identidade cultural que nos define e precisa ser ressignificada com estratégias de reconhecimento e reparação.

Nesse contexto, recebo com gratidão o movimento de resistência da Roça Nova Editora em busca de editar autoras latino-americanas e nos colocar em contato com nossa própria voz.Para terminar, reproduzo os versos da Canción com Todos, consagrada na voz de Mercedes Sosa como um hino pela união dos povos latino-americanos. E posso ouvir as palmas marcando seu ritmo.

Canción com todos

Tejada Gómez e César Isella

Salgo a caminar

Por la cintura cósmica del sur

Piso en la región

Más vegetal del viento y de la luz

Siento al caminar

Toda la piel de América en mi piel

Y anda en mi sangre un río

Que libera en mi voz

Su caudal

Sol de alto Perú

Rostro Bolivia, estaño y soledad

Un verde Brasil besa a mi Chile

Cobre y mineral

Subo desde el sur

Hacia la entraña América y total

Pura raíz de un grito

Destinado a crecer

Y a estallar

Todas las voces, todas

Todas las manos, todas

Toda la sangre puede

Ser canción en el viento

¡Canta conmigo, canta

Hermano americano

Libera tu esperanza

Con un grito en la voz!

Todas las voces todas

Todas las manos todas

Toda la sangre puede, ser canción en el viento

Canta conmigo, canta, hermano americano

Libera tu esperanza con un grito en la voz

Karla Mourão

Karla Mourão é jornalista, trabalhou no mercado publicitário nas áreas de Planejamento, Consumer Insights e Novos Negócios. Há 21 anos, abriu sua própria empresa de Comunicação Corporativa, Scriptorio, hoje Escritório 21. Na agência, é CEO e responde pela Direção de Criação e pelo Planejamento Estratégico. Karla é também poeta, escritora e colagista.

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