As crises sanitária e econômica que enfrentamos nos apresentam uma mensagem clara. Não podemos mais adiar a reformulação dos parâmetros sociais da humanidade.

por Leandro Uchoas, do Instituto Shanti Brasil

Em 2020, acossados por um adversário quase invisível, o mundo parou. A pandemia do coronavírus nos empurrou, forçadamente, para dentro de nossas duas primeiras casas: nossos lares, e nosso eu interior. A partir desse forçado isolamento, e das incontáveis reflexões que esse processo sugere, surgiu a necessidade de se rediscutir o cuidado que temos tido – ou não –  com nossa casa comum, a nave Gaia, a amada mãe Terra.

As crises sanitária e econômica, resultado mais óbvio do cenário pandêmico, nos dão o mais claro recado: precisamos reformular, por completo, os modelos de organização da vida nesse nosso cantinho comum, o mundo. Essa mensagem que hoje recebemos, ao invés de ser interpretada como uma ameaça, embora também a seja, pode ser sentida como um presente. Porque há muito tempo nos afastamos de quaisquer modos de vida capazes de nos trazer algum nível de paz interior e bem-estar social. Portanto, torna-se uma dádiva poder nos renovar.

Nesse sentido, tudo aquilo que chamamos de Cultura de Paz surge como um instrumental de incomparável valor nessa reformulação dos parâmetros de vida do momento atual. Enxergando-nos, a nós mesmos, como ativistas da paz, instrumentos da construção do amanhã, podemos recorrer a todo o arsenal de conhecimento, técnicas e valores da Cultura de Paz para a reconstrução de nossos paradigmas. “Nós somos aqueles por quem estávamos esperando”, já diziam em oração os antigos Hopituh Shi-Nu-Mu, povos originários da América do Norte.

O primeiro elemento que vem à mente, quando falamos da mensagem que o momento atual nos dá, é o braço ambiental da Cultura de Paz. A velocidade com que o coronavírus se espalhou, saindo de dentro de um morcego em direção a todas as latitudes do mundo, revelam muitas das inúmeras contradições da vida contemporânea: a ausência de ecossistemas autorregulados para impedir proliferações, os maus tratos aos animais na China, a velocidade das conexões aéreas e terrestres entre os países, etc. Nesse sentido, urge repensar nosso cotidiano como aldeões dessa tribo global. Urge disseminar valores como o “consumo responsável” e a “simplicidade voluntária” em todos os países.

Base da noção contemporânea sobre Cultura de Paz, o conceito de “simplicidade voluntária” remete à noção de que, para caminharmos na direção da regeneração planetária, precisamos levar, voluntariamente, uma vida mais simples. E essa nova forma de vida demanda maior disponibilidade de tempo, de conexão relacional com os outros, de afeto pelos fazeres cotidianos e de maior vivência de espiritualidade. O conceito está intimamente ligado ao que se chama de “consumo responsável”, que basicamente significa uma preocupação do indivíduo com a cidadania, atenção ao que se consome, onde se consome, o que se financia e como será feito o descarte depois do uso. Basicamente, seria termos mais consciência e responsabilidade ao gastar nossos recursos. Os dois conceitos estão relacionados ao cuidado com a casa planetária.

Além disso, por nos obrigar a mergulhar no nosso íntimo, a crise atual também deixou clara a ausência de equilíbrio emocional e de paz interior em boa parte da humanidade. E a incapacidade de se relacionar de forma não violenta. Dentro de nossos lares, voltamos a enfrentar o desafio de acessar nossas emoções internas mais sombrias, e a incapacidade de se relacionar com os mais próximos de forma pacífica. Nesse campo, o mundo precisa que se semeie valores como “paz interior”, “inteligência emocional” e, sobretudo, a “comunicação não violenta”.

Chama-se de “inteligência emocional” uma propensão a entender o potencial inteligente do ser humano para além da racionalidade e das medições de seu QI. Entende-se o ser humano integral como aquele que acessa suas emoções e sabe relacioná-las à razão. Nessa direção, cabe ao homem incorporar novas habilidades relacionais, transformando-se em instrumento de construção de paz. Para isso, a “comunicação não violenta” é um valor sem tamanho, dada a amplitude que atinge, o potencial que tem. Também é necessário pensar que o melhor agente de construção de paz é aquele que semeia quietude em seu coração, ou seja, “paz interior”. A paz no mundo depende de equilíbrio emocional.

O contexto atual também nos convida a organizar maneiras de se levar a humanidade a promover outro entendimento sobre como deve ser a vida. Existem paradigmas mentais causadores de sofrimento individual e desigualdade social que precisam ser transmutados e substituídos por outros parâmetros. Como construir? A Cultura de Paz vai oferecer ao menos duas ferramentas que podem ser utilizadas. Uma delas é a Educação, que deve se coadunar com um ideário de paz, e a outra é o “ativismo não violento”, onde se visa elaborar estratégias de promoção de novos paradigmas na sociedade (intervenções nas cidades, manifestações, jogos, paralisações, etc).

Por fim, temos um ferramental iluminado de renovação social, pronto para ser semeado aos quatro ventos, tomando raízes nos corações das pessoas, e nas infinitas e variadas práticas sociais. Nos vendo como instrumentos de construção de paz e dividindo entre nós as eventuais estratégias de elaboração e estabelecimento de um mundo novo, podemos atuar desde já para o saneamento da humanidade rumo a um planeta efetivamente de paz. Tomando consciência de nosso lugar como irmãos e irmãs de uma família maior que se merece nova, que se merece bela, e que se merece pacífica, encontraremos nosso lugar na difícil, porém urgente, tarefa de construir a nova Terra.


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