Por que chegar ao final de um livro que trata das armadilhas das nossas mais recorrentes tolices românticas e narcísicas? O que faz Liliana Heker nos levar até o ponto final de um enredo previsível sobre a masculinidade sedutora e tóxica e sobre a ilusão de controle da mulher socialmente emancipada e psicologicamente escrava do desejo romântico e da culpa da carne? 

O que uma história tão trivial de desafios intelectuais que se destinam a servir de justificativa para a submissão sexual tem de tão especial que as páginas passam velozes e íntimas como um segredo compartilhado? 

Só há com certeza uma resposta que perdoe esse exercício de escape em meio a pandemia Covid-19 e à humanidade que desmorona imersa na intolerância e no ódio, anunciando regimes autoritários, desrespeitando os direitos humanos, ameaçando a democracia e a liberdade de expressão, impassível frente à desigualdade social, ao ecocídio e ao genocídio. 

Sim, Zona de Clivagem é suficientemente contemporâneo para nos mostrar de forma contundente o quanto nossa pequenez pode permitir que todo esse horror avance no mundo lá fora. Fora do devaneio homem e mulher, fora da vaidade da sedução, fora da superioridade intelectual, da erudição, fora do espaço de privilégio fútil a que poucos têm direito.

O estonteante ritmo imposto pela agilidade da narrativa de Liliana nos mantém embriagados e identificados no que temos de pior, mulheres de uma geração que se orgulha da emancipação, forjada na verdade, mas ajoelha aos pés do primeiro sedutor profissional que se apresente a exultar sua inteligência e liberdade. Belas e tolas à espera de um olhar que possa confirmar sua submissão e fazê-las voltar a uma zona de conforto qualquer. E a mulher com M maiúsculo, que poderia se criar diretamente do barro e do sopro divino, aceita que a doação da costela de Adão a mantenha eternamente grata pela estrutura sem a qual não fica de pé. 

Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada”

Gênesis 2:18-24 

Há que se dar um basta nessa história brutal.

Arriscaria dizer que, com sutil inteligência, é isso que faz Liliana ao nos revelar quão pequeno pode ser o universo feminino quando aprisionado pela paixão e pelo assédio masculino. O espelho da memória da menina Irene, onde reconheceu pela primeira vez os peitinhos púberes que algum macho revelou ao universo dizendo ser capaz de chupá-los, sugou sua alma para esse lugar servil de alimentar desejos como uma forma de existir, como a única forma de existir. 

Mas esse cativeiro, construído para distrair uma geração que experimentava pela primeira vez a possibilidade de escolha sobre seu corpo e sua produção intelectual, não é a única realidade. São só vidas inteligentes sequestradas com perversão. Há muitos corpos ilesos a essa ilusão, porque lhes couberam maiores responsabilidades do que se dedicar a encantar serpentes, o que por mais divertido que seja, pode resultar em mutilação.

Enquanto Irene e Alfredo se divertem na cumplicidade de incansáveis jogos de olhares e palavras e até mesmo no prazer da leitura de “Educação Sentimental”, irônica alusão à aspiração por uma vida de paixões da sociedade francesa da época do clássico de Flaubert, nada existe em suas vidas para além de repetidas adolescentes que servem para alimentar seu autoengano, seu medo da realidade e sua necessidade de afetação. Não por acaso, a vizinha suicida surge no enredo apenas para lembrar que pouco importa, embora trocassem cordialmente biscoitos pela varanda da sala.

Essa miséria humana, de se ocupar do outro apenas quando é extensão de si mesmo e de buscar intimidade e conivência sem escrúpulos como forma de se livrar da solidão, pode se disfarçar de amor, mas talvez seja o que mais se afasta de seu verdadeiro significado.

O romance “Zona de Clivagem” é vertiginoso, libidinoso no sentido mais erótico da palavra não dita, mas compartilhada entre amantes, e aponta para a única possibilidade de redenção da condição humana em seu final feliz. Entenda você felicidade como quiser. 

Karla Mourão

Karla Mourão é jornalista, trabalhou no mercado publicitário nas áreas de Planejamento, Consumer Insights e Novos Negócios. Há 21 anos, abriu sua própria empresa de Comunicação Corporativa, Scriptorio, hoje Escritório 21. Na agência, é CEO e responde pela Direção de Criação e pelo Planejamento Estratégico. Karla é também poeta, escritora e colagista.

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